O Abilinho
Tudo porque uma tarde a minha tia Constancinha decidiu ir buscar-me ao liceu. Para já, detesto que vão buscar-me ao liceu. Tenho idade suficiente para saber o caminho - e como a minha casa fica a dois quarteirões abaixo, aqui se prova como seria difícil perder-me nas ruas, e como era perfeitamente desnecessário que alguém me fosse buscar.
Quanto mais a tia Constancinha sempre a beijocar-me, com um bigode que pica mais do que Ó-Ai-Ó-Linda.
O pior de tudo foi quando, ainda a atravessar a rua, a tia Constancinha se lembrou de gritar:
- Abilinho! Ó Abilinho! Não ouves? Sou eu, Abilinho!
Foi o fim do mundo.
- Abilinho! Ó queridinho! Ó pequerruchinho! - macaqueou o António, torcendo-se em gargalhadas e trejeitos.
- Ai coitadinho do Abilinho, que tem medinho de ir sozinho! - berrou o João-Pequeno do outro lado do pátio.
- Abilinho, ainda fazes xixi nas fraldinhas? - dizia a Margarida junto ao gradeamento, com ares vingativos.
Nem sequer a Luísa faltou ao coro:
- Abilinho, queres que te leve ao colinho até casa?
Como se não fosse nada com ela, a tia Constancinha continuava:
- Ó Abilinho! Anda lá, que são horas!
Eu queria-me fazer superior àquilo tudo, gozar com os meus colegas da minha própria desgraça ou, em jeito de vingança, apontar para alguns com outros igualmente feios nomes. Mas não era capaz. O Abílio, agora reforçado por Abilinho, enchia a minha cabeça, os meus ouvidos, a minha capacidade de reagir. Além do mais, todos os meus amigos tinham nomes perfeitamente normais: João, António, Filipe, Miguel, Luísa, Margarida, nem um me servia para vítima.
Naquele momento eu era, de certeza absoluta, a pessoa mais infeliz de todo o liceu, de toda a rua, de todo o bairro, de toda a cidade, de todo o país, de toda a Europa, de todo o mundo.
E ninguém vinha em meu socorro.
Alice Vieira, Viagens à Roda do Meu Nome