sexta-feira, 10 de julho de 2026



 Hoje, na escola, o dia foi terrível!


   Como de costume chegámos de manhã à escola e quando o Caldo (é o nosso vigilante) tocou à campainha, pusemo-nos em fila. E, a seguir, todos os outros foram para as suas salas e só nós é que ficámos no pátio. Não sabíamos o que se passava, se a professora estava doente e se nos iam mandar para casa ou não. Mas o Caldo mandou-nos calar e ficar na fila. E depois vimos chegar a professora com o diretor da escola; falavam um com o outro e olhavam para nós, e depois o diretor foi-se embora e a professora veio ter connosco.

   - Meus meninos - disse-nos - durante a noite uma canalização gelou e rebentou e por isso a nossa sala ficou inundada. Os canalizadores estão a acabar as reparações.

    - Rufus,  se não te interessa o que eu estou a dizer poderás, ao menos, fazer o favor de ficar sossegado e, portanto, vamos ser obrigados a ter a aula na lavandaria. Peço-vos que tenham juízo, que não façam desordens e que não aproveitem este pequeno acidente para se distraírem.

   - Rufus, segundo aviso. Vamos!

   Nós estávamos muito contentes porque é sempre divertido quando há alterações na vida da escola. Agora, por exemplo, era muito engraçado ir atrás da professora pela escadinha de pedra que dá para a lavandaria. Nós pensamos que conhecemos bem a escola, mas existem montes de sítios, como este, para onde nunca ninguém vai porque é proibido. Chegámos à lavandaria - não é muito grande e não tem móveis, apenas uma pia e uma caldeira com imensos tubos.

   -Ah! é verdade, é preciso ir buscar cadeiras ao refeitório - disse a professora.

   Então, todos nós levantámos o dedo e desatámos a gritar: "Eu posso lá ir, senhora professora? Eu, professora, eu!" e a professora bateu com a régua em cima da pia, mas fazia menos barulho do que se fosse em cima da secretária, na sala de aula.

   - Um pouco de silêncio! - disse a professora. - Se continuam a gritar dessa maneira não vai ninguém buscar as cadeiras e damos a aula de pé... Ora vamos lá a ver... o Aniano, e depois o Nicolau, o Godofredo, o Eudes, e ... e ... e o Rufus, apesar de não merecer, vão ao refeitório, sem se distraírem, e lá dar-vos-ão as cadeiras. O Aniano fica responsável pela expedição, uma vez que ele é ajuizado.

   Saímos da lavandaria muito contentes, e o Rufus disse que nos íamos divertir à brava.


Sempé-Goscinny, As Aventuras do Menino Nicolau

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Abilinho


   Tudo porque uma tarde a minha tia Constancinha decidiu ir buscar-me ao liceu. Para já, detesto que vão buscar-me ao liceu. Tenho idade suficiente para saber o caminho - e como a minha casa fica a dois quarteirões abaixo, aqui se prova como seria difícil perder-me nas ruas, e como era perfeitamente desnecessário que alguém me fosse buscar.

   Quanto mais a tia Constancinha sempre a beijocar-me, com um bigode que pica mais do que Ó-Ai-Ó-Linda.

   O pior de tudo foi quando, ainda a atravessar a rua, a tia Constancinha se lembrou de gritar:

- Abilinho! Ó Abilinho! Não ouves? Sou eu, Abilinho!

   Foi o fim do mundo.

   - Abilinho! Ó queridinho! Ó pequerruchinho! - macaqueou o António, torcendo-se em gargalhadas e trejeitos.

   - Ai coitadinho do Abilinho, que tem medinho de ir sozinho! - berrou o João-Pequeno do outro lado do pátio.

   - Abilinho, ainda fazes xixi nas fraldinhas? - dizia a Margarida junto ao gradeamento, com ares vingativos.

   Nem sequer a Luísa faltou ao coro:

   - Abilinho, queres que te leve ao colinho até casa?

   Como se não fosse nada com ela, a tia Constancinha continuava:

   - Ó Abilinho! Anda lá, que são horas!

   Eu queria-me fazer superior àquilo tudo, gozar com os meus colegas da minha própria desgraça ou, em jeito de vingança, apontar para alguns com outros igualmente feios nomes. Mas não era capaz. O Abílio, agora reforçado por Abilinho, enchia a minha cabeça, os meus ouvidos, a minha capacidade de reagir. Além do mais, todos os meus amigos tinham nomes perfeitamente normais: João, António, Filipe, Miguel, Luísa, Margarida, nem um me servia para vítima.

   Naquele momento eu era, de certeza absoluta, a pessoa mais infeliz de todo o liceu, de toda a rua, de todo o bairro, de toda a cidade, de todo o país, de toda a Europa, de todo o mundo.

   E ninguém vinha em meu socorro.


Alice Vieira, Viagens à Roda do Meu Nome