sábado, 11 de julho de 2015

SOL e MAR

   Agora eram férias, mas o Zé Migalha não estava com os pais. Nem com um, nem com outro. O pai tinha ido para o estrangeiro em viagem de negócios, as férias da mãe, desta vez, não acertavam com as suas férias da escola...
   Valeu-lhe o tio Dinis que disse assim:
   - O miúdo não vai ficar fechado dois meses num sétimo andar. Levo-o comigo.
   Iam à praia todos os dias: ele e o tio Dinis que era irmão da mãe.
   E foi o tio Dinis quem, ao vê-lo tão quieto, deitado na areia, lhe veio fazer cócegas na sola do pé.
   - Eh, seu Zé Migalha, vamos dar um mergulho?
   O pequeno encolheu as pernas e rolou meia volta no chão, mas não respondeu.
   À cara molhada das lágrimas, tinha-se colado areia, e o tio Dinis desatou a rir:
   - Olha o barbudo, com uma barba de três dias!
   Zé Migalha não percebeu quem era ali o barbudo, porque o tio é que tinha barbas, mas muito mais antigas do que três dias. Sempre om conhecera com elas!...
   Só quando o tio lhe passou a mão pela cara a sacudir a areia, é que entendeu a brincadeira. Riu-se, e pôs-se de pé, aceitando o desafio.
   Correram ambos para a água, tio e sobrinho, dispostos a deitar ao mar todas as tristezas.

Maria Isabel de Mendonça Soares, Os Bons Piratas

quinta-feira, 9 de julho de 2015

PIPISTRELO

Novidade sem tamanho,
verdadeira sensação,
atraía ao Zoológico
uma grande multidão.
Um bicho estranho chegara,
mastodonte,
dinossauro,
quem sabe, era um dragão!
O corpo de jacaré,
asas roxas de morcego,
crescendo a olhos vistos,
crescendo de fazer medo.
O tratador italiano,
de apelido Pomarola,
ao ver as asas abertas
do animal recém-chegado,
não pôde conter um grito:
"Oh, que belo pipistrelo!"
- pipistrelo quer dizer morcego
em sua língua materna.
Os que ouviram gostaram,
a história se espalhou
e para sempre ficou
Pipistrelo batizado.
Jornais e televisão tomaram conta do assunto,
espalharam aos quatro ventos,
fotografias, imagens
e notícias de alarmar:
acuado no seu canto, Pipistrelo não comia.
Não comia nem bebia.
De asas murchas e roxas,
ele também não dormia.
Vinte dias sem comer,
sem dormir e sem beber,
se assim continuasse, não tinha jeito,
ia morrer.
Todo o mundo se afligia:
"Ai, meu Deus! Quanta agonia!
Pipistrelo está morrendo
credo em cruz, ave-maria!
Não deixem ele morrer!"
Do Brasil inteiro vieram os que de bicho entendiam.
Observaram, estudaram, especularam, discutiram, analisaram.
Que fazer? Ninguém sabia.
Coça que coça a cabeça...
Até que por fim um deles, entendido em coração,
achou o nó da questão:
"Todo o mal de Pipistrelo é tristeza, é paixão."
A notícia se espalhou, rádio, jornal, televisão,
dos quatro cantos do mundo interessados no assunto
tocaram-se para o Brasil:
sábios de toda a Europa, gringos americanos e um chinês de Macau.

Zélia Gattai, Pipistrelo de Mil Cores




quarta-feira, 8 de julho de 2015

ADIVINHA QUEM

Faz nascer quem lhe apetece,
seja aqui ou no Japão,
e, se quer, logo acontece
ser Inverno quando é Verão.

Faz viagens sem partir,
regressa sem ter voltado.
Tem sempre, até a dormir,
papel e lápis ao lado.

Com tristeza ou alegria
escreve o que sente e o que vê..
Quer em prosa ou poesia
está no livro de quem lê!

Soledade Martinho Costa, Vamos Adivinhar

terça-feira, 7 de julho de 2015

ADIVINHAS

1

Eu fui feita às avessas
Às avessas quero ser;
Quantos paus há no mundo,
Quantos hei de roer.
Mastigar e deitar fora,
Que engolir não pode ser.

2

Qual é a coisa, qual é ela,
que quanto mais cheia,
menos pesa?

3

O que é que anda, anda, tanto anda
e nunca chega a casa do vizinho?

1- A serra    2 - Uma panela cheia de buracos   3 - O moinho. Muito andam as velas, mas ele não sai do mesmo lugar

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A  MAGIA DA LEITURA

   Sofia abre um livro e o livro torna-se caixinha de surpresas. Uma pomba branca, poisada a meio da página, enche-lhe os seus grandes olhos. Será uma pomba de verdade, assim impressa a cores, de asas estendidas e pronta a levantar voo?
   A ave, de cabecinha imóvel, estende o bico para diante e observa Sofia com atenção. Vai dar-lhe um beijo? Já lho deu? De repente bate as asas, levanta as patinhas cor-de-rosa de cima do papel e aí vai ela pelos ares, partindo em busca de ar livre.
   Sofia tem uma pomba livre dentro de um livro que guarda na estante, e quem o sabe? Agora ela já voa ao longe por cima de um areal, onde o bico penteia os fios de ouro  da cabeleira do Sol e com eles tece no ar um manto de luz mais radioso para alegrar o novo dia.
   Cintila o manto sobre o mar azul e cardumes de peixes de prata são atraídos à tona da água, onde ficam, encantados, a cantar. Passa a rede de uma traineira e leva-os em monte aos pescadores, que no barco em cantoria não cantam menos que os peixes.
   Depois irrompem da luz milhares de pombas brancas (é luz feita de pombas ou são pombas feitas de luz?) e as asas, em camada estendida no areal seco, palpitam como espumas de onda batida, cardume de peixes prateados ou penas a tremerem ao vento.
   Ao fim da tarde voam todas para o pombal, que se vê à beira de uma casa com gente lá dentro, a mexer, salas, quartos e corredores iluminados. E essa casa vivente é o livro aberto de Sofia, caixinha de surpresas.

Arsénio Mota, A Nuvem Cor-de-Rosa

sábado, 4 de julho de 2015

O VELHO, O RAPAZ E O BURRO

Um velho, um rapaz e um burro na estrada
Em fila indiana os três caminhavam.

Passou uma velha e pôs-se a troçar:
- O burro vai leve e sem se cansar!

O velho então p'ra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.

Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
- Ai que coisa feia! Que triste é ver

O velho no burro enquanto o rapaz
Pequeno e cansado a pé vai atrás!

O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém lhes gritou:

- Bem se vê que o mundo está transtornado!
O pai vai a pé e o filho montado!

O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.
Assim pela estrada seguiram os três.
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:

- Um rapaz já grande e um velho casmurro
São carga demais no lombo de um burro!

Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras sério falou:
- Aprende, rapaz, a não te importar
Se a boca do mundo de ti murmurar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 2 de julho de 2015

UMA MÚSICA SÓ NOSSA

   A Ana lembrava-se bem da surpresa do pai no dia em que ela, ainda muito pequena, lhe anunciara:
   - Quero aprender a tocar violino. 
   - Violino?! - espantou-se o pai. É claro que ele esperava que, mais tarde ou mais cedo, a Ana viesse a gostar de música a ponto de a aprender. Talvez o piano fosse o seu eleito, era a esperança do pai... mas o violino?
   A Ana teimou e venceu. Aliás sem dificuldades de maior. E foi para uma escola de música combinando muito bem os horários de modo a não faltar às aulas da sua escola regular.
   Nos primeiros tempos, quase desistiu. Tudo parecia tão diferente do que imaginara, tudo muito lento, muito aborrecido, nada animado como desejara... Aos poucos, com grande teimosia para vencer os bocejos e o desejo de fazer coisas mais animadas, foi avançando.
   Todos os dias aprendia mais um bocadinho, em cada regresso às aulas fazia nova descoberta. Até que um dia... foi maravilhoso! O violino já tinha alguma coisa a dizer através das suas mãos. Trouxe para casa uma música inteira muito bem aprendida e deu um espetáculo só para os pais. Sentou-se diante de si, em duas cadeiras, um mini-auditório, um teatro em miniatura, e tocou. Os aplausos no final pareciam vir de uma multidão entusiasmada. A alegria, a amizade, o apoio valem bem uma multidão.
   Foi tudo isso que levou a Ana a continuar. E por vezes o caminho parecia tão difícil... Agora já sabe centenas de músicas, o violino canta feliz debaixo dos seus dedos, o arco passa por eles num vaivém perfeito. Algumas vezes, a Ana toca com o pai - o que é ainda mais divertido.
   Há um segredo, um segredo muito grande, um segredo da Ana que só agora se revela cá entre nós: a Ana deseja, um dia, escrever a sua própria música. A primeira que fizer, a primeira da sua autoria será dedicada aos pais. Não está só pensada, já tem título: "Uma música só nossa". Será uma música para contar muitas, muitas coisas que a Ana tem para dizer...

Alexandre Honrado, Querem Roubar o Sol