terça-feira, 25 de agosto de 2015

O ELEFANTE

O elefante é um bicho narigudo.
Com um nariz que nunca mais acaba
e um rabo pequenino, é extraordinário:
o nariz-tromba é que parece o rabo, 
um grande rabo mas posto ao contrário.

O elefante é um pândego orelhudo.

As orelhas tão grandes, largas, rasas,
parecem tampas de panelas velhas,
folhas de couve, barbatanas, asas,
tapetes ou abanos... ai que orelhas!
O elefante é um animal dentudo.
Mostra dois dentes grandes e bonitos,
branquinhos, de marfim, ponta aguçada...
Aquilo não são dentes, são palitos
espetados na boca desdentada!
O elefante é um brincalhão pançudo.
Com um tal peso e com um tal tamanho
se pudesse brincava o dia inteiro
nos rios, a nadar ou a tomar banho,
com a tromba servindo de chuveiro.
O elefante é um operário mudo.
Quando o homem o caça e ensina, manso,
num circo ou lenhador-carregador,
não diz nada, trabalha sem descanso:
é bom palhaço e bom trabalhador.
O elefante é grande e bom em tudo.
Na selva muito bicho mata e caça:
os maiores bichos comem os menores.
E ele, o maior, cheio de paz e graça,
come só folhas, frutos, talvez flores.
Que amigo inteligente, o bom gigante!
Tão pançudo e dentudo e narigudo
e orelhudo e operário mudo,
o elefante é grande e bom em tudo...
Por isso eu gosto muito do elefante.
Leonel Neves, O Elefante e a Pulga

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A PAZ

A paz
é uma pomba que voa.
É um casal
de namorados.
São os pardais
de Lisboa
que fazem ninho
nos telhados.
É o riacho
de mansinho
que saltita
nas pedras morenas
e toda a calma
do caminho
com árvores
altas e serenas.
A paz é o livro
que ensina.
É uma vela
em alto mar
e é o cabelo
 da menina
que o vento
conseguiu soltar.
E é o trabalho,
o pão, a mesa,
a seara de trigo,
ou de milho,
e perto
da lâmpada acesa
a mãe que embala
o seu filho.

Sidónio Muralha, Verso Aqui, Verso Acolá

sábado, 22 de agosto de 2015

A BAILARINA

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré,
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá,
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles
 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

OS DEZ ANÕEZINHOS 
DA TIA VERDE-ÁGUA

   Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa, e logo passava para outra, tudo ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem água para os pés, nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as mãos e ia-a tocando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fadas a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
   - Ai, tia! Vossemecê é que me podia valer nesta aflição.
   - Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem.
   E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem;  que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro da água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobrando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher  assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. Logo à boca da noite foi a casa da tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo porque a féria chegava para mais, vai a casa da tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez:
   - Ai, minha tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição;  trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que eu lhe pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
   A velha respondeu-lhe:
   - Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
   - Ainda não; o que eu queria era vê-los.
   - Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
   A mulher compreendeu a coisa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais Portugueses



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

ENCONTRO

Marquei encontro
com o sol
esta manhã.
Em vez do sol
veio a nuvem
com seus pezinhos de lã.

Pôs-se a chorar à janela
para eu a deixar entrar,
de lágrimas fez um rio
que vai na rua a passar.

Marquei encontro
com o sol
esta manhã.
Em vez de sol
veio o vento
e pôs tudo em movimento.

Varreu as folhas do chão,
varreu a nuvem do ar.
Entrou-me pela janela
um raio de sol a brilhar.

Marquei encontro
com o sol
esta manhã.
Não vou faltar ao encontro.
Até amanhã.

Luísa Ducla Soares, A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

TU ÉS INTELIGENTE

   Antes de mais nada, quero deixar uma coisa bem clara desde o princípio: tu és inteligente! Quando eu era jovem, o meu pai dizia-me sempre que toda a gente nasce inteligente - que todas as crianças possuem algum dom especial. Adorei essa ideia. Mesmo nem sempre tendo bons resultados na escola, eu, de certa forma, sabia que isso não tinha a ver comigo. Eu não era burro. Apenas aprendia de modo diferente daquele que os professores esperavam de mim.
   O meu pai ajudou-me a ver o ensino com simpatia. Ele ensinou-me a procurar o método mais adequado para a minha aprendizagem. Se eu não tivesse feito isso, poderia não ter terminado o ensino secundário ou o superior. Provavelmente, não estaria preparado para a minha vida financeira e não me teria tornado suficientemente confiante para ser quem sou.
   Todos temos uma forma diferente de aprender. O segredo é descobrir o que melhor se adapta a ti. Quando conseguires isso descobrirás o génio que se esconde aí dentro.
   Um génio é alguém com excecional habilidade nalguma coisa. Mas os génios não são necessariamente bons em tudo. Na verdade, o génio tem geralmente uma aptidão especial numa área, sendo mediano noutras.
   Sabias que Albert Einstein, que desenvolveu a Teoria da Relatividade [...], nunca teve bom aproveitamento na escola? Ele não era bom a decorar coisas mas, mesmo assim, acabou por se tornar um dos maiores físicos de todos os tempos. O cérebro dele concentrava-se em ideias, em vez de em factos. Os factos, dizia ele, podiam ser encontrados em livros, por isso não havia necessidade de guardá-los na cabeça. Ele queria a mente livre para raciocinar com clareza.
   A escola pede-nos para guardarmos os factos na memória, mas, quando estamos fora da escola, por norma só precisamos de saber onde estão armazenados os factos para podermos pesquisá-los, ou então saber a quem perguntar quando precisamos deles.
   O modo como medem o nosso desempenho na escola tem muito pouco a ver com a nossa inteligência ou com o nosso potencial de sucesso. Geralmente, o nosso rendimento escolar mede apenas o quanto somos bons a fazer testes! Não se trata de uma medida de genialidade com a qual todos nascemos.

Robert T. Kiyosaki, Pai Rico, Pai Pobre Para Jovens,
 20/20 Editora 

 


terça-feira, 18 de agosto de 2015

A dietética

   Torrãozinho suspira, Torrãozinho boceja, Torrãozinho aborrece-se...
   Na realidade, Torrãozinho chama-se Francisco Manuel João, mas a Maria João, sua irmã mais velha, que não gosta de perder tempo, deu-lhe uma alcunha doce e comestível.
   A Maria João é muito comilona!
   Ela conhece todo o género de jogos divertidos. Mas, neste momento esquece o resto do mundo e escreve um grande diário, "que tem pelo menos dez mil páginas", pensa o Torrãozinho.
   Que estará ela a fazer? Trabalho de casa nas férias? O seu diário íntimo? Um romance destinado a um grande sucesso? Ou muito simplesmente a escrever uma magnífica história de piratas que tão bem sabe contar?
   Torrãozinho suplica:
   - Fala comigo, Maria João, fala-me.
   - Silêncio, estou a escrever.
   - Mas o quê?
   - Algumas noções de dietética.
   - O quê?
   - Pobre inocente! Claro que desconheces todo o significado desta prestigiosa palavra.
   - Isso é o que pensas... Conheço todas as palavras do dicionário e todas as que lá não vêm. Quando fechei o gato no sótão, sem ser de propósito, ele ficou dois dias a dieta... Depois ficou "héctico". A dietética é isto.
   - Nada disso. A dietética é uma ciência que permite saber o que deves comer.
   - Isso já eu sei há muito tempo: muita mousse de chocolate e nada de cenouras.
   - Estás enganado! Alimentando-te ao acaso, ao sabor dos teus apetites, arruínas a saúde.
   - Queres dizer que vou ter uma indigestão? - interroga Torrãozinho.
   - Não quer dizer que isso aconteça, mas tornar-te-ás muito alto, muito largo, muito magro, muito gordo, ou muito...
   Torrãozinho encolhe os ombros:
   - Ora! Eu como o que quero e quando quero desde que a mãe não veja, e sinto-me muito bem, nem muito isto nem muito aquilo...
   - Isso é o que se pensa! - diz Maria João, ligeiramente trocista.
   Como se ele na véspera não se tivesse enchido de salgadinhos, deixando o padrinho sem nada para acompanhar o uísque!
   Mas as mulheres têm sempre a última palavra! Torrãozinho, altivo mas resignado, deixa-a e vai brincar com o comboio elétrico. Quanto à Maria João, continua mordendo a ponta da língua ao mesmo tempo que copia  para o seu grande caderno os judiciosos ensinamentos da professora de Economia Doméstica.

Maria de Lourdes Modesto, O Meu Livro de Cozinha