quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DE UM BESTIÁRIO


FORMIGA

Com a formiga viajei,
Quase de braço dado...

Senhora formiga
É bom que se diga
Que tu és má:

Vais à alma, a pé,
p'ra roubar até
O que lá não há...


CISNE

Na água lenta onde insinua
O pescoço, espasmo constante,
Pura e hostil desliza a sua
Branca forma perturbante.


ANDORINHA

Despenteei-me já, mercê duma andorinha
Que na cabeça me passava p'la tardinha.


GRILO

O grilo que lutava ainda,
Adormeceu.

Coitado,
Já não podia aguentar o peso da noite.


Alexandre O'Neill, Obras Completas

1924-1986




sábado, 12 de novembro de 2016

A GALINHA 
DOS OVOS DE OURO

   Naqueles tempos antigos em que as fadas, as bruxas e os duendes andavam pelo mundo, havia numa cidade um casal com a fama de nunca estar satisfeito com o que tinha.
   Quando fazia bom tempo, o marido e a mulher queixavam-se do calor e quando fazia frio lamentavam-se amargamente de terem de viver num país como aquele, onde nem sequer se podia pôr o nariz fora da porta de casa. Se o tempo era seco, queixavam-se do pó; e se chovia, praguejavam contra a água e as nuvens.
   Para além do mais, eram muito avarentos. Na cidade dizia-se que, por uma moeda de ouro, eram capazes de enforcar todos os parentes e amigos e inclusivamente de se matarem um ao outro.
   Para provar que tudo o que se dizia deles era verdade, um duende brincalhão e trocista, que tinha a sua casa dentro do tronco de uma árvore, apareceu ao marido numa tarde em que este tinha ido buscar lenha ao bosque.
   - Olá, bom homem - disse-lhe, do tronco da sua árvore - Pareces cansado e triste. A tua vida é dura? Estás doente? Não tens o que comer?
   O homem olhou assustado para o duende e desatou a tremer de medo.
   - Não, não estou doente - conseguiu dizer por fim o homem - Também não tenho fome, nem se passa nada de mal comigo. Mas estou triste porque a vida é sempre triste, porque a minha mulher e eu somos pobres e por muitas outras coisas que trago guardadas no coração e que não saberia explicar-te muito bem.
   - Se não estás doente e não tens fome, não és pobre - disse-lhe o duende.
   - Sou sim - replicou o homem - Quem não tem ouro é pobre e eu não tenho ouro.
   O duende não conseguiu evitar uma gargalhada.
   - Não, homem, não - disse por fim - Estás enganado. Eu posso ter todo o ouro do mundo que quiser, pois sou o duende do bosque e sei onde estão escondidos todos os tesouros. Mas a mim o ouro não faz falta nenhuma. Preciso da luz do Sol, de comida e desta casa forrada com suaves penas de aves e peles de esquilo; e, sobretudo, preciso de estar saudável e forte, de poder caminhar e desfrutar de todas as coisas que me rodeiam... Como tenho tudo isso, sou rico e feliz.
   - Não, não - insistiu o homem. Ser pobre significa não ter ouro e eu não tenho ouro. Por isso estou sempre triste e não sou capaz de ser feliz.
   - Fazes-me pena, amigo! - disse-lhe o duende - Vou oferecer-te uma galinha que todos os dias porá um ovo de ouro. Tu só tens de esperar e recolher diariamente o ovo. Assim, terás o ouro que tanto desejas e serás muito feliz para sempre...
   E o duende retirou do tronco da árvore uma galinha entregou-a ao homem. Este colocou-a debaixo do braço e desatou a correr todo contente em direção à cidade, enquanto que o duende ria às gargalhadas.
   Marido e mlher ficaram toda a tarde e toda a noite à espera que a galinha pusesse o ovo. Ao amanhecer, o animal começou a cacarejar e, pouco tempo depois, apareceu debaixo dele um bonito e reluzente ovo de ouro.
   - Que aborrecimento! - disse a mulher - Temos de esperar até amanhã para poder ter outro igual...
   - Sim, que azar! - acrescentou o marido - Terá de passar muito tempo, até que a galinha ponha ovos suficientes para sermos os mais ricos da cidade. Por isso o duende se ria tanto qando ma ofereceu.
   - Eu sempre ouvi dizer - disse a mulher - que as galinhas têm dentro delas todos os ovos que põem, um a um. Porque não a matamos e retiramos todos de uma vez?
   - E se o duende se aborrece?
   - O duende está no bosque e nunca saberá - respondeu ela.
   E, sem esperar mais, agarraram na pobre galinha, que cacarejava desesperadamente, e degolaram-na.
   Mas dentro dela não havia mais nenhum ovo e, marido e mulher, começaram a puxar os cabelos, a chorara e a gritar, lamentando-se da sua sorte.
   Empoleirado sobre um armário,o duende do bosque ria-se, pensando que a felicidade ou infelicidade não está no ouro, mas no coração de cada pessoa.






quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A CANÇÃO DA PRIMAVERA

A primavera canta
ouvi a sua voz
o rouxinol espanta-se
de ouvi-la como nós

A primavera canta
vais ouvi-la também
quando um pássaro canta
não se ouve mais ninguém

A primavera é ave
é ela o rouxinol
há pássaro que lave
melhor a luz do sol?

Gastão Cruz, Rua de Portugal

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

EPITÁFIOS


De um cão

Aos ladrões e ladrava, calava-me aos amantes,
E assim servia dono e dona, em duas frentes.


De um cozinheiro

Como o mundo em geral anda sempre às avessas!
Aqui um cozinheiro seu descanso encontrou,
Que em vida muitos e bons pratos cozinhou.
Comem-no agora os vermes - cru e sem travessas!


Martin Opitz, O Cavalo e a Rosa - Poesia do Barroco Alemão

1597 - 1639

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domingo, 11 de setembro de 2016

A TORRE DE BABEL

   Em toda a Terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Emigrando do Oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Sennaar e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: "Vamos fazer tijolos, e cozamo-los ao fogo." Utilizaram o tijolo em vez de pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. Depois disseram: "Vamos construir uma cidade e uma torre cuja extremidade atinja os céus. Assim, tornar-nos-emos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a face da Terra." O Senhor, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam a edificar. E o Senhor disse: "Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não se compreendam uns aos outros."
   E o Senhor dispersou-os dali para toda a face da Terra, e suspenderam a construção da cidade. Por isso lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra, e foi também dali que o Senhor os dispersou por toda a Terra.

Génesis 11, 1-9

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terça-feira, 16 de agosto de 2016

AS VOZES

A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança