domingo, 30 de agosto de 2015

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho
Que lhe dou de graça
Inútil dormir
Que a dor não passa.
Espero sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança.

Ouça meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com o meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que
não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade.

Chico Buarque de Hollanda


sábado, 29 de agosto de 2015

A ESTOUVACA

deitada atravessada
na estrada
a malhada
vai ser atropelada
foi

Alexandre O'Neill, Poesias Completas


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O MENINO TONECAS

Professor:   
Ora vamos lá ver: Joaquim escuta a lição... A lição o que é?

Tonecas:     
A lição? ... A lição hoje é de Gramática...

Professor:   
Oh, menino! Eu sei que é de Gramática... O que eu pergunto é, na oração: "Joaquim escuta a lição." , a lição o que é?... Vamos! Escuta...

Tonecas:     
Ah! Já sei! "Quem escuta, de si ouve..."

Professor:  
 Não menino! Não é nada disso... Valha-me Deus! Quem escuta, escuta alguma coisa... Logo, a lição é o complemento direto, percebeu?...

Tonecas:     
Ah! Agora percebi...

Professor:  
 Ora até que enfim! Agora, preste muita atenção: todos os verbos transitivos pedem complemento direto, isto é, exprimem ação que exige objeto, como por exemplo: estimar alguém, comprar alguma coisa, etc. Compreendeu?

Tonecas:     
Perfeitamente, senhor professor...

Professor:
   Verbos intransitivos são aqueles que exprimem ação que não pede objeto, como por exemplo: morrer, suspirar, chover...

Tonecas:     
Ó senhor professor! Eu peço desculpa, mas chover não é intransitivo...

Professor:   
Ora essa, menino! Então porquê?...

Tonecas:     
Porque chover pede objeto...

Professor:  
 Essa agora! Então que objeto é que pede?...

Tonecas:     
Um guarda-chuva ou uma capa de borracha...

José de Oliveira Cosme, As Lições do Menino Tonecas,
Diálogos Humorísticos
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O ROUXINOL DO IMPERADOR

   "Os meninos sabem com certeza que na China o imperador é chinês, e que todos os cortesãos que o rodeiam são chineses. Esta história é muito antiga, mas vale a pena contá-la antes que caia no esquecimento.
   O palácio do imperador era o mais belo do mundo, todo feito de porcelana, mas tão frágil e delicado que era preciso grande precaução para tocá-lo.
    No jardim cresciam as flores mais raras. Para lá das flores, confundia-se com uma enorme floresta, com árvores altíssimas e lagos profundos. A floresta descia até ao mar, que era de um azul-celeste. E grandes navios podiam chegar até perto dos ramos das árvores, nas quais vivia um rouxinol.
   Este rouxinol cantava tão maravilhosamente, que mesmo o pobre pescador, que tanto tinha a fazer, parava para o ouvir sempre que, à noite, vinha lançar as redes.
   De todos os pontos do mundo chegavam viajantes para visitar o palácio e o jardim do imperador. Mas aquilo que mais os encantava era o rouxinol. E, quando o ouviam, diziam todos:
   - Ah, não há dúvida que é o melhor de tudo quanto vimos!"

Hans Christian Andersen, O rouxinol e o imperador da China

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O ELEFANTE

O elefante é um bicho narigudo.
Com um nariz que nunca mais acaba
e um rabo pequenino, é extraordinário:
o nariz-tromba é que parece o rabo, 
um grande rabo mas posto ao contrário.

O elefante é um pândego orelhudo.

As orelhas tão grandes, largas, rasas,
parecem tampas de panelas velhas,
folhas de couve, barbatanas, asas,
tapetes ou abanos... ai que orelhas!
O elefante é um animal dentudo.
Mostra dois dentes grandes e bonitos,
branquinhos, de marfim, ponta aguçada...
Aquilo não são dentes, são palitos
espetados na boca desdentada!
O elefante é um brincalhão pançudo.
Com um tal peso e com um tal tamanho
se pudesse brincava o dia inteiro
nos rios, a nadar ou a tomar banho,
com a tromba servindo de chuveiro.
O elefante é um operário mudo.
Quando o homem o caça e ensina, manso,
num circo ou lenhador-carregador,
não diz nada, trabalha sem descanso:
é bom palhaço e bom trabalhador.
O elefante é grande e bom em tudo.
Na selva muito bicho mata e caça:
os maiores bichos comem os menores.
E ele, o maior, cheio de paz e graça,
come só folhas, frutos, talvez flores.
Que amigo inteligente, o bom gigante!
Tão pançudo e dentudo e narigudo
e orelhudo e operário mudo,
o elefante é grande e bom em tudo...
Por isso eu gosto muito do elefante.
Leonel Neves, O Elefante e a Pulga

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A PAZ

A paz
é uma pomba que voa.
É um casal
de namorados.
São os pardais
de Lisboa
que fazem ninho
nos telhados.
É o riacho
de mansinho
que saltita
nas pedras morenas
e toda a calma
do caminho
com árvores
altas e serenas.
A paz é o livro
que ensina.
É uma vela
em alto mar
e é o cabelo
 da menina
que o vento
conseguiu soltar.
E é o trabalho,
o pão, a mesa,
a seara de trigo,
ou de milho,
e perto
da lâmpada acesa
a mãe que embala
o seu filho.

Sidónio Muralha, Verso Aqui, Verso Acolá