sábado, 16 de maio de 2015

ERA UMA VEZ...


   Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
   Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
   - Pai!
   Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.


Mia Couto, "A menina sem palavra", in Contos do Nascer da Terra,
Caminho, 2002



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sexta-feira, 15 de maio de 2015

A FAMÍLIA

Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão

vamos para casa
disse o esturjão

Mário Henrique Leiria, Novos Contos do Gin,
 Estampa, 1973

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Lisboa, 3 de fevereiro de 1993




   Querida Marta




   Odeio a época do Carnaval. Sempre detestei carnavalices. Lembro-me daquelas fatiotas ridículas que a minha mãe nos obrigava a vestir (a mim e ao Traumatizado) quando éramos pequenos. Acho que nunca me esquecerei daquelas cenas tristes que, inexplicavelmente, faziam sempre rir os grandes. Tenho cá um azar ao mês de fevereiro! Na escola é o desatino do costume: continuam com as abomináveis tradições de atirar ovos, água, tinta e outras bodegas para cima de toda a gente, como se isso tivesse alguma piada. É incompreensível. Num mundo onde milhões morrem à fome, gastam-se ovos e tomates em guerrilhas de corredores das escolas! É proibido, claro, mas, por isso mesmo, todos os anos é a mesma guerra. Lá vão uns dias para casa, de castigo, mas não se ralam, muito pelo contrário.




Maria Teresa Maia Gonzalez, in A Lua de Joana,
 Verbo


quarta-feira, 13 de maio de 2015

ANEDOTA


   A professora de Inglês ensinou na aula três novas cores: green (verde), yellow (amarelo) e pink (cor de rosa). Em seguida, pediu aos alunos que, em casa, escrevessem uma pequena composição que incluísse as três cores.
   No dia seguinte, o Luisinho leu:
   - "Levantei-me da cama que tem lençóis pink, olhei para a relva que era green e para o sol que era yellow!"
   - Muito bem - disse a professora. - E tu, Joãozinho?
   - "Peguei no meu carro pink e cheguei aos semáforos que ficaram yellow. Quando passaram a green fui embora. "
   - Muito bem - disse a professora. - Agora tu, Zezinho, que é que escreveste?
   - Senhora professora, estava em casa a jantar e tocou o telefone: green, green...; levantei o auscultador e disse: yellow, yellow...; como ninguém respondeu, pink, desliguei.

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terça-feira, 12 de maio de 2015

CASUÍSTICA

Um padre de largo peito
Exclamava em voz profunda:
"Sim, caríssimos irmãos!
Deixai lá queixumes vãos;
Quanto Deus faz é bem feito!"

Vai-se dali um corcunda:
- Salvo o devido respeito,
Já nem marreca é defeito!...
Sou eu são e escorreito? -
Ele, ao vê-lo, com efeito,

Sem poder olhar direito,
De pescoço contrafeito,
Ombros largos, peito estreito,
Roçando os pés com as mãos:
"E quem duvida, cristãos!
Que é um corcunda... perfeito?!"

João de Deus, Campo de Flores, vol. II,
Companhia Editora Portugal-Brasil

segunda-feira, 11 de maio de 2015

PALAVRAS DUM AVESTRUZ
 TODO GRIS


Arrancaram-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.


E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas
A esses
Que sem piedade
Me roubaram estas penas que me cobrem.


E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido.


E elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas! -
Passam, por mim, desdenhosas
Em gargalhadas mesquinhas.


Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.


António Botto, Canções e Outros Poemas, Quasi Edições
Poeta português (1897-1959)




domingo, 10 de maio de 2015

A SURPRESA



   - Levanta-te depressa, Nicolau. Tenho uma surpresa para ti.
   - É um carrinho? - perguntei eu. - Um vagão de mercadorias para o meu comboio? Uma caneta? Uma bola de râguebi?
   - Não - disse a mamã. - É um pulôver.
   E então eu fiquei dececionado, porque as coisas para vestir não são surpresas a sério.
   E então foi terrível! A mamã ficou bestialmente zangada, disse-me que eu era um ingrato, que tinha corrido as lojas todas e que não tinha sido fácil arranjar um pulôver assim tão bonito.
   - É um pulôver de bebé! - exclamei eu.
   - Queres um açoite? - perguntou-me a mamã.
   Portanto, como vi que não era altura para graças, vesti o meu pulôver, que era azul-claro, com três patos amarelos, cada um por cima do outro, e desatei a chorar.
   A caminho da escola, eu ia bastante aborrecido porque sabia que os meus amigos iam gozar comigo quando vissem os meus patos. Mesmo com o casaco bem abotoado até ao pescoço, via-se o pato de cima a rir-se.
   Os meus amigos estavam a jogar ao berlinde e o Alceste virou-se quando eu cheguei.
   - Jogas? - perguntou-me ele.
   - Não - respondi. - E, além disso, deixem-me em paz!
   - Ora essa, que é que tens? - perguntou-me o Eudes.
   - E se o meu pulôver não vos agrada, levam umas boas estaladas - disse eu.
   - Oh! - exclamou o Godofredo. - Um pato! O Nicolau tem um pato!
   E então o Godofredo pôs-se a correr, com as pernas afastadas, a abanar os braços, enquanto se virava para mim e gritava: "Quá-quá! Quá-quá!"


Gosciny e Sempé, O Balão do Menino Nicolau e Outras Histórias Inéditas,
Teorema (adaptado)