sábado, 23 de maio de 2015

O CEGO E O MEALHEIRO

   Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantidade de moedas. Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro duma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo duma figueira. Ela lá sabia o lugar, e, quando arranjava outra boa maquia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro.
   Ora um vizinho espreitou-o, viu onde é que ele tinha a panela e foi lá e roubou tudo. Quando o cego deu pela falta, ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo para ver se arranjava maneira de tornar a apanhar o seu dinheiro. Pôs-se a considerar quem seria o ladrão e achou que por força teria de ser o vizinho. Tratou de ir à fala com ele e disse-lhe:
   - Olhe, meu amigo, quero contar-lhe uma coisa muito em particular, que ninguém nos ouça.
   - Então o que é, senhor vizinho?
   - Eu ando doente e isto há viver e morrer. Por isso quero dar-lhe parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há de ficar tudo para si, que sempre tem sido um bom vizinho e me tem tratado bem. Ainda tinha aí num buraco mais umas moedas de ouro e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.
   O vizinho, ao ouvir aquilo, agradeceu-lhe muito a intenção, e naquela noite tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro aonde ela estava, no fito de apanhar o resto do tesouro. Quando bem entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e levou-a para casa. Depois desatou num grande berreiro, para que o vizinho o ouvisse:
   - Roubaram-me! Roubaram-me tudo!
   E daí em diante guardou as suas moedas num sítio onde ninguém soube.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português,
Pub. Dom Quixote

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sexta-feira, 22 de maio de 2015

VOO


Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicolores,
as palavras voam.
Bando azul de andorinhas,
bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas.
Como escuros morcegos
como negros abutres,
as palavras voam.


Oh! alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós,
as palavras voam.


E às vezes pousam.


Cecília Meireles, Melhores Poemas,
São Paulo, Global Ed., 1996





quinta-feira, 21 de maio de 2015

O SAL E A ÁGUA



   Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas, por sua vez, qual era a mais sua amiga? A mais velha respondeu:
   - Quero mais a meu pai do que à luz do Sol.
   Respondeu a do meio:
   - Gosto mais do meu pai do que de mim mesma.
   A mais moça respondeu:
   - Quero-lhe tanto como a comida quer o sal.
   O rei entendeu por isto que a filha mais nova  o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio dum rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia; foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
   Começou então a espreita-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas do noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que nada comia. Por fim  perguntou-lhe o dono da casa por que é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
   - É porque a comida não tem sal.
   O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer por que é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça do pai.




Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português,
Pub. Dom Quixote

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A CASA BRANCA DA PRAIA



   Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.
   Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia.
   Era uma praia muito grande e quase deserta onde havia rochedos maravilhosos. Mas durante a maré alta os rochedos estavam cobertos de água. Só se viam as ondas que vinham crescendo do longe até quebrarem na areia com um barulho de palmas. Mas na maré vazia as rochas apareciam cobertas de limo, de búzios,  de anémonas, de lapas, de algas e de ouriços. Havia poças de água, rios, caminhos, grutas, arcos, cascatas. Havia pedras de todas as cores e feitios, pequeninas e macias, polidas pelas ondas. E a água do mar era transparente e fria. Às vezes passava um peixe, mas tão rápido que mal se via. Dizia-se "Vai ali um peixe" e já não se via nada. Mas as vinagreiras passavam devagar, majestosamente, abrindo e fechando o seu manto roxo. E os caranguejos corriam por todos os lados com uma cara furiosa e um ar muito apressado.
   O rapazinho da casa branca adorava as rochas. Adorava o verde das algas, o cheiro da maresia, a frescura transparente das águas. E por isso tinha imensa pena de não ser um peixe para poder ir até ao fundo do mar sem se afogar. E tinha inveja das algas que baloiçavam ao sabor das correntes com um ar tão leve e feliz.
   Em setembro veio o equinócio. Vieram marés vivas, ventanias, nevoeiros, chuvas, temporais. As marés altas varriam a praia e subiam até à duna. Certa noite, as ondas gritaram tanto, uivaram tanto, bateram e quebraram-se com tanta força na praia, que, no seu quarto caiado da casa branca, o rapazinho esteve até altas horas sem dormir. As portadas das janelas batiam. As madeiras do chão estalavam como madeiras de mastros. Parecia que as ondas iam cercar a casa e que o mar ia devorar o Mundo. E o rapazito pensava que, lá fora, na escuridão da noite, se travava uma imensa batalha em que o mar, o céu e o vento se combatiam. mas por fim, cansado de escutar, adormeceu embalado pelo temporal.




Sophia de Mello Breyner Andresen, A Menina do Mar,
 Figueirinhas

terça-feira, 19 de maio de 2015

O SORRISO de ROBINSON


   Robinson nunca fora vaidoso e não sentia prazer especial em se ver ao espelho. No entanto, havia tanto tempo que isso não lhe acontecia que ficou muito surpreendido quando um dia, ao tirar um espelho de um dos baús do Virgínia, pôde voltar a ver o seu próprio rosto. Ao fim e ao cabo, não mudara muito. Apenas a barba estava mais comprida e muitas rugas novas lhe sulcavam agora a face. O que o inquietou, apesar de tudo, foi o seu ar sério, uma espécie de tristeza que nunca o abandonava. Tentou sorrir. Nessa altura sentiu um calafrio, ao dar-se conta de que não era capaz. Bem se esforçou; tentou a todo o custo franzir os olhos e levantar os cantos da boca. Impossível: já não sabia sorrir. Tinha a impressão de que o seu rosto era de madeira, uma máscara imóvel, congelada numa expressão taciturna. Depois de muito refletir, acabou por compreender o que se passava. Era por estar sozinho. Havia demasiado tempo que não tinha alguém a quem sorrir, e deixara de saber fazê-lo: quando queria esboçar um sorriso, os músculos não lhe obedeciam. Continuou a olhar-se ao espelho com uma expressão dura e severa e o coração apertava-se-lhe de tristeza. Assim, tinha tudo o que necessitava naquela ilha: bebida e comida, uma casa, uma cama para dormir; mas ninguém a quem sorrir, e o seu rosto era como gelo.
   Foi então que baixou os olhos para Tenn. Estaria Robinson a sonhar? O cão estava a sorrir-lhe! Num dos lados do focinho o lábio negro estava levantado, pondo a descoberto uma dupla fila de colmilhos. Ao mesmo tempo, inclinava comicamente a cabeça para um dos lados e os olhos cor de amêndoa franziam-se ironicamente. Robinson agarrou com ambas as mãos a grande cabeça felpuda e as pálpebras humedeceram-se-lhe de emoção, enquanto um impercetível tremor lhe agitava as comissuras dos lábios. Tenn continuava a sorrir-lhe à sua maneira e Robinson olhava-o atentamente, para responder a sorrir.
   A partir desse momento, foi como que um jogo entre ambos. De repente, Robinson interrompia o trabalho, ou a caçada, ou o passeio pela praia, e fixava Tenn de certa maneira. O cão sorria-lhe a seu modo, enquanto o rosto de Robinson recuperava a maleabilidade e se humanizava e, pouco a pouco, sorria.


Michel Tournier, Sexta-Feira ou a Vida Selvagem,
Editorial Presença

segunda-feira, 18 de maio de 2015

UMA NOVA PALAVRA

Eu quero uma nova palavra
diferente das outras palavras
que cansei de repetir,
uma palavra de vento,
uma palavra que o tempo
seja incapaz de ferir.
Eu quero uma nova palavra,
mistura de sol e de frio,
de barcos descendo um rio,
cheia de céu e de mar.
Eu quero uma nova palavra
aberta de par em par
como o rosto de um menino
com paisagens no ouvido
e cantigas no olhar.

João Pedro Mésseder, De Que Cor é o Desejo?,
Ed. Caminho



domingo, 17 de maio de 2015

RIBEIRA MOTA


Meus senhores
aqui está o homem
que faz a faca
que mata o boi
que bebe a água
que apaga o lume
que queima o pau
que bate no cão
que morde o gato
que papa o rato
que lambe o sebo
que unta a corda
que prende a bota
que leva o vinho
à ribeira mota.




Alice Vieira, Eu bem vi nascer o sol, Antologia da poesia popular portuguesa,
Caminho