sábado, 8 de agosto de 2015

POÉTICA

Que é poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados
Que é o poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto
um homem 
que tem fome
como qualquer outro
homem

Cassiano Ricardo

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

TRAVA-LÍNGUAS
- Pardal pardo, porque palras? 
- Palro sempre e palrarei,
Porque sou o pardal pardo
E palrador d'el-rei.
O rato roeu a rolha da garrafa
do rei da Rússia.
Mário Mora foi a Mora
Com intenção de vir embora
Mas, como em Mora demora,
Diz um amigo de Mora:
- Está cá o Mora?
- Está, está cá o Mora.
- Então agora o Mora mora em Mora? 
- Mora, mora.


Fui a Belas para ver velas,
Mas em Belas velas não vi;
Porque velas que iam para Belas
Eram as velas que iam daqui.



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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

ERA UMA VEZ UM MENINO

Era uma vez um menino,
Um menino pequenino.
De perninhas arqueadas...
E o menino vai crescendo,
Engatinha, faz tem-te.
Um dentinho... Dois ratinhos...
Bate palmas... Já diz "mãe"...
O menino vai crescendo.
Era uma vez um menino,
Um menino já grandito.
Já come por sua mão,
Já fala, já anda e corre
Já toca no seu tambor,
Trão-tão-tão e trão-tão-tão...
E o menino vai crescendo
E já não é um menino.
E já não é um menino,
É agora um rapazito.
Pegou na mala dos livros,
E foi para a escola aprender.
Já lê, já escreve, já conta,
Joga ao pião, ao berlinde,
Pernas sujas, esfoladas,
Calções rotos, botas tortas...
Vai crescendo, vai crescendo,
Rapazito já não é.
Patrícia Joyce, Brincar Também é Poesia 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Pedro está perdido
porque a cabeça perdeu.
"É fácil de encontrar",
consolei-o então eu.
Deve andar lá num canto
da tua casa, quem sabe?
"Oh, não me metas isso
na minha pobre cabeça!"
"Porquê?"
"Porque já lá não cabe!"

Teresa Guedes, Palavromanias

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O MENINO AZUL

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
- de tudo o que aparecer.
O menino quer um burburinho
que saiba inventar
histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Rua das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Cecília Meireles, Ou Isto ou Aquilo

domingo, 2 de agosto de 2015

DENTRO de um LIVRO

   Entrei pela porta de um livro e fechei-me lá dentro com as palavras acesas e as luzes apagadas. A minha mãe deu dez voltas à casa à minha procura. "Onde é que o miúdo se terá metido?" Com medo de ser encontrado, eu saltava das páginas pares para as ímpares e enrodilhava-me, feito bicho de conta, entre dois parêntesis ou, por ser muito magro, atrás de um ponto de exclamação.
   Era a primeira vez na minha vida que eu me fechava dentro de um livro. (...)
   O livro era agora o meu refúgio e a minha casa, onde tudo era imprevisível e estranho e onde as letras tinham espessura e cheiro como se fossem humanas. Confesso que me perdi lá dentro, como já antes me perdera no labirinto de esferovite do parque de diversões que animava os meses de verão da minha terra.

José Jorge Letria, A Mão Esquerda de Cervantes,
 Biblioteca Prestígio

sábado, 1 de agosto de 2015

NO PAÍS DA VONTADE

   Moreno, franzino, indolente, este menino de dez anos parecia andar distante de todas as vibrações. Pegou num livro e abandonou-o sem o abrir. Colheu uma flor e deixou-a. Quis passear e arrependeu-se.
   - Não tenho nada que fazer, nem me apetece fazer nada - disse, por fim, a olhar para o céu.
   Nisto, uma figura apareceu ao pé dele.
   - Acabo de ouvir uma coisa extraordinária: um menino a dizer que não lhe apetece fazer nada, nem tem nada que fazer!
   - Se é verdade, não deves surpreender-te...
   - Não devo surpreender-me? E se eu te pedir que venhas comigo ao país da vontade?
   - Irei, se for aqui perto.
   Desceram ambos ao pomar. - Chegámos: é este o país da vontade - o menino, de olhos abertos, não compreendia e chegou a pensar que o seu pai endoidecera.
   - Repara, meu filho, neste botão de laranjeira. Este botão quer ser flor; depois, a flor quer ser fruto. Neste país, tudo tem uma vontade; tudo, neste silêncio do dia, tem o propósito fundo de ser mais, de ir mais além!
   Como a tarde quer ser noite de estrelas, e a noite madrugada gloriosa a chamar a vida do homem para a luta, assim tudo aspira a progredir.
   Nascer, subir, ampliar-se!

António Botto, Contos