NO PAÍS DA VONTADE
Moreno, franzino, indolente, este menino de dez anos parecia andar distante de todas as vibrações. Pegou num livro e abandonou-o sem o abrir. Colheu uma flor e deixou-a. Quis passear e arrependeu-se.
- Não tenho nada que fazer, nem me apetece fazer nada - disse, por fim, a olhar para o céu.
Nisto, uma figura apareceu ao pé dele.
- Acabo de ouvir uma coisa extraordinária: um menino a dizer que não lhe apetece fazer nada, nem tem nada que fazer!
- Se é verdade, não deves surpreender-te...
- Não devo surpreender-me? E se eu te pedir que venhas comigo ao país da vontade?
- Irei, se for aqui perto.
Desceram ambos ao pomar. - Chegámos: é este o país da vontade - o menino, de olhos abertos, não compreendia e chegou a pensar que o seu pai endoidecera.
- Repara, meu filho, neste botão de laranjeira. Este botão quer ser flor; depois, a flor quer ser fruto. Neste país, tudo tem uma vontade; tudo, neste silêncio do dia, tem o propósito fundo de ser mais, de ir mais além!
Como a tarde quer ser noite de estrelas, e a noite madrugada gloriosa a chamar a vida do homem para a luta, assim tudo aspira a progredir.
Nascer, subir, ampliar-se!
António Botto, Contos
Conheci esse texto na sala de aulas, em 1999. Fazia parte do Manual da 5ª Classe. Naquela altura, sem medo de errar, lemos mil vezes, mas quase não o entendi como entendo hoje.
ResponderEliminarTexto maravilhoso.