quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CANÇÃO DE EMBALAR

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será para ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ou virás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu canto
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme que inda a noite é uma menina

Deixa-a vir também adormecer

José Afonso

terça-feira, 1 de setembro de 2015

SOPA DE TARTARUGA FINGIDA

  Durante todo o tempo em que estiveram a jogar, a Rainha nunca parou de implicar com os jogadores, gritando: "Cortem a cabeça dele!" ou "Cortem a cabeça dela!" Os que eram condenados, eram imediatamente levados pelos soldados que, como é evidente, tinham de deixar de ser arcos; por isso, daí a cerca de meia hora, já não havia arcos e todos os jogadores, exceto o Rei, a Rainha e Alice, estavam presos ou condenados à morte. Por fim, a Rainha desistiu, já sem fôlego, e perguntou a Alice: "Já viste a Tartaruga Fingida?"
   "Não", respondeu Alice. "Nem sei o que é uma Tartaruga Fingida."
   "É aquilo de que é feita a Sopa de Tartaruga Fingida", disse a Rainha.
   "Nunca vi nem ouvi falar de nenhuma", disse Alice.
   "Então anda daí", disse a Rainha, "e ela conta-te a sua história."
   Enquanto se afastavam juntas, Alice ouviu o Rei dizer, em voz baixa ao grupo: "Estão todos perdoados."
   "Ora vá lá, aí está uma coisa boa!", disse a si mesma, porque se sentia muito infeliz com a quantidade de condenações ordenadas pela Rainha.

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, 
Ambar


domingo, 30 de agosto de 2015

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho
Que lhe dou de graça
Inútil dormir
Que a dor não passa.
Espero sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança.

Ouça meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com o meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que
não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade.

Chico Buarque de Hollanda


sábado, 29 de agosto de 2015

A ESTOUVACA

deitada atravessada
na estrada
a malhada
vai ser atropelada
foi

Alexandre O'Neill, Poesias Completas


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O MENINO TONECAS

Professor:   
Ora vamos lá ver: Joaquim escuta a lição... A lição o que é?

Tonecas:     
A lição? ... A lição hoje é de Gramática...

Professor:   
Oh, menino! Eu sei que é de Gramática... O que eu pergunto é, na oração: "Joaquim escuta a lição." , a lição o que é?... Vamos! Escuta...

Tonecas:     
Ah! Já sei! "Quem escuta, de si ouve..."

Professor:  
 Não menino! Não é nada disso... Valha-me Deus! Quem escuta, escuta alguma coisa... Logo, a lição é o complemento direto, percebeu?...

Tonecas:     
Ah! Agora percebi...

Professor:  
 Ora até que enfim! Agora, preste muita atenção: todos os verbos transitivos pedem complemento direto, isto é, exprimem ação que exige objeto, como por exemplo: estimar alguém, comprar alguma coisa, etc. Compreendeu?

Tonecas:     
Perfeitamente, senhor professor...

Professor:
   Verbos intransitivos são aqueles que exprimem ação que não pede objeto, como por exemplo: morrer, suspirar, chover...

Tonecas:     
Ó senhor professor! Eu peço desculpa, mas chover não é intransitivo...

Professor:   
Ora essa, menino! Então porquê?...

Tonecas:     
Porque chover pede objeto...

Professor:  
 Essa agora! Então que objeto é que pede?...

Tonecas:     
Um guarda-chuva ou uma capa de borracha...

José de Oliveira Cosme, As Lições do Menino Tonecas,
Diálogos Humorísticos
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O ROUXINOL DO IMPERADOR

   "Os meninos sabem com certeza que na China o imperador é chinês, e que todos os cortesãos que o rodeiam são chineses. Esta história é muito antiga, mas vale a pena contá-la antes que caia no esquecimento.
   O palácio do imperador era o mais belo do mundo, todo feito de porcelana, mas tão frágil e delicado que era preciso grande precaução para tocá-lo.
    No jardim cresciam as flores mais raras. Para lá das flores, confundia-se com uma enorme floresta, com árvores altíssimas e lagos profundos. A floresta descia até ao mar, que era de um azul-celeste. E grandes navios podiam chegar até perto dos ramos das árvores, nas quais vivia um rouxinol.
   Este rouxinol cantava tão maravilhosamente, que mesmo o pobre pescador, que tanto tinha a fazer, parava para o ouvir sempre que, à noite, vinha lançar as redes.
   De todos os pontos do mundo chegavam viajantes para visitar o palácio e o jardim do imperador. Mas aquilo que mais os encantava era o rouxinol. E, quando o ouviam, diziam todos:
   - Ah, não há dúvida que é o melhor de tudo quanto vimos!"

Hans Christian Andersen, O rouxinol e o imperador da China