terça-feira, 15 de setembro de 2015

A GRÁVIDA E O CEGO

Grávida
Então vizinho?! Lá se tem amanhado, hem?

Cego
(Feliz) Hum! Cá vamos indo... andando.

Grávida
(Bisbilhoteira) E então? Já sabe? Quanto é que rendeu?

Cego
(Confidencial) Foi "onta". Ali o "home" da "nha" filha. Foi lá "arreceber".
A "prumêra" vez.

Grávida
(Fria) Sim?! E quanto foi?

Cego
(Feliz) Ah! Ela... "inté me fez cá 'ma spreza"... "Tadinha". Arranjou-me aí um"pxinho"... "Más"... "S'ele" era, ham?! (Sinal com as mãos) Assim! Gordo, bonito... (Encolhe os ombros satisfeito) Ah! "Sabe q'ê gosto, n'é?"

Grávida
(Maldisposta) Vocemecê tem sorte, tem!

Cego
(Muito contente) Eh, "rai"! Há "m'ta" tempo... que "nã" "c'mia" que "masoubesse"...

Grávida
(Quase num lamento) Tem sorte, tem.

Prista Mosteiro, A Caixa,
Moraes Editores


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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

   Durante séculos, o lobo foi considerado na Europa como uma das encarnações do mal. Feroz, cruel e espreitando no fundo das florestas, ainda povoa o nosso imaginário. É o mau da fita na história do Capuchinho Vermelho. Aparece ligado aos vampiros na literatura romântica do século passado. O Drácula imaginado por Bram Stoker não comandava legiões uivantes do alto do seu castelo dos Cárpatos?
   Nas lendas portuguesas abundam histórias trágicas com alcateias. Quem, ainda há menos de cem anos nas aldeias portuguesas ou espanholas, ousava pôr em dúvida que, por via de uma estranha maldição, alguns infelizes se transformavam em lobisomens e corriam uivando pelos campos nas noites de lua cheia? (...)
   E, no entanto, nem todas as tradições antigas faziam deste animal um ser maléfico. Basta lembrar a lenda da fundação de Roma, com os irmãos Rómulo e Remo amamentados por uma loba.
   Hoje, com o lobo europeu ameaçado de extinção, descobre-se que, afinal, a ferocidade que lhe era correntemente apontada pecava por manifesto exagero. Biólogos e especialistas em comportamento animal demonstraram em caso de ataque ao homem são excecionais e praticados por animais doentes ou perturbados.
   Um pouco por toda a Europa começa a olhar-se para os lobos com outros olhos. Há tentativas de reintrodução de animais no campo, experiências-piloto, criação em semicativeiro, etc.
   E sobretudo tenta-se garantir que nos poucos sítios onde ainda há lobos em liberdade (caso de Portugal e de Espanha, calculando-se para o nosso país um efetivo  da ordem das duas centenas de indivíduos), estes possam continuar a viver com um mínimo de tranquilidade.

Alvean Tahiri e Stéphanie Cascino,
 in Expresso
 

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domingo, 13 de setembro de 2015

AS VERTIGENS DE ROBINSON

   Desde a mais tenra infância que Robinson tinha vertigens. Pôr-se de pé em cima de uma cadeira bastaria para lhe provocar um certo mal-estar. Um dia, tinha querido visitar o campanário da catedral da sua cidade natal, York. Depois de uma longa escalada por uma escada íngreme e estreita, em caracol, vira-se bruscamente fora da sombra das paredes, em pleno céu, numa plataforma de onde se via toda a cidade,  com os seus habitantes do tamanho de formigas. Gritou, cheio de medo, e tiveram de o descer como um embrulho, com a cabeça tapada pela capa de estudante.
   Por isso, todas as manhãs se esforçava por subir a uma árvore, com o objetivo de perder o medo. Antigamente, teria achado este exercício ridículo e inútil. Mas, desde que vivia tomando Sexta-Feira como modelo, achava importante livrar-se daquela terrível tendência para as vertigens.
   Nessa manhã, escolhera uma araucária, uma das maiores árvores da ilha. Agarrou-se ao ramo mais baixo e içou-se, apoiando-se num joelho. Trepou depois dos sucessivos andares de ramagens, pensando que gozaria o nascer do sol um pouco mais cedo quando se encontrasse no topo da árvore. À medida que subia, sentia a árvore vibrar cada vez mais, e balouçar ao vento. A vertigem começou a contrair-lhe o estômago. Estava já próximo do cimo quando, de repente, se viu suspenso no vazio. Certamente por efeito de um raio, o tronco estava desprovido de ramos ao longo de dois metros. Cometeu então um erro que dificilmente se evita quando se teme a vertigem: olhou para baixo. Não viu senão uma confusão de ramos que pareciam desabar, girando como uma espiral. A angústia paralisou-o e agarrou-se ao tronco, apertando-o com os braços e entre as pernas. Compreendeu, finalmente, que devia olhar, não para baixo, mas sim para cima. Levantou os olhos. No céu azul, um grande pássaro dourado em forma de losango balouçava-se ao sabor do vento. Sexta-feira dera cumprimento à sua misteriosa promessa: fazia Andoar voar.

Michel Tournier, Sexta-feira ou a Vida Selvagem,
 Editorial Presença

terça-feira, 8 de setembro de 2015

ARMA SECRETA

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha reta
mais longe que os foguetões.

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Ereta, na torre erguida,
um alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

António Gedeão, Poesias Completas

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domingo, 6 de setembro de 2015

O TONECAS E O JOAQUIM

Professor:

Agora preste muita atenção: Joaquim partiu uma perna... Onde está o sujeito?

Tonecas:

Está no hospital...

Professor:

Não, menino...

Tonecas:

Então está no posto da Cruz Vermelha...

Professor:

Ó menino! Não diga mais asneiras, por favor... O sujeito é o Joaquim percebeu?

Tonecas:

Ah! Agora percebi...

Professor:

Bem. Então diga-me: O Joaquim partiu a cabeça... Joaquim que é?

Tonecas:

É um grande infeliz, senhor professor!

Professor:

O quê, menino?

Tonecas:

Pois claro!... Em tão pouco tempo já partiu uma perna e a cabeça.

José de Oliveira Cosme, As Lições do Menino Tonecas,
 Diálogos Humorísticos

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sábado, 5 de setembro de 2015



MADAGÁSCAR

   É a quarta maior ilha do Mundo e fica situada no oceano Índico, ao largo da costa de África. Terra pequena, mas cheia de contrastes e surpresas. No lado leste, está coberta de floresta tropical húmida, mas a sul o clima é quente e seco. Nas montanhas, o clima é mais fresco.
 

   Há muitos animais e plantas que só existem em Madagáscar. Os tenreques, por exemplo, que parecem ouriços-cacheiros, e os lémures-de-cauda-anelada. Dois terços dos camaleões de todo o Mundo vivem nesta ilha. São lagartos que mudam de cor conforme estão zangados ou assustados e alguns são muito pequenos.
    Os habitantes desta ilha são os malgaxes. Os habitantes mais antigos vieram para a ilha há mais de 1.500 anos, provenientes do Sudeste da Ásia. Mas também de mais perto, alguns atravessaram só o canal de Moçambique para chegarem a Madagáscar.
Lémures-de-cauda-anelada
   
   Nos dias de hoje, a maioria dos habitantes descendentes dos asiáticos, vivem na capital ou arredores e os descendestes de africanos estão mais distribuídos pela costa.
   Todos falam a língua malgaxe.
   Madagáscar pertenceu à França mais de 50 anos e muitos habitantes  falam também francês. Tornou-se independente em 1960.
  A maioria da população vive da agricultura. Cultivam principalmente arroz, mandioca, cana-de-açúcar, café e baunilha. Outras das suas atividades são a criação de gado e a pesca.
   Desde a apresentação do filme Madagáscar, que a ilha ficou mais conhecida pelos jovens do mundo inteiro.
Camaleão de Madagáscar

Tenreque

Personagens do filme Madagáscar

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

COISAS DE AMOR

A Tesoura bem andava
à procura de um marido.
Nunca mais o encontrava:
era um Tesouro escondido.

A bela Bola amarela
sofria de um amor tolo:
gostava muito de um Bolo
(mas ele não gostava dela).

Uma casa arredondada
casou com um Caso bicudo.
Para as Casas um teto é tudo,
casam por tudo e por nada!

Manuel António Pina

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