segunda-feira, 29 de junho de 2015

PAPAGAIO DE PAPEL

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra, vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu...

Deixem-no  lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação e ser
verdade aquela ânsia de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel!...

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...

Sebastião da Gama, Verso Aqui, Verso Acolá

domingo, 28 de junho de 2015

QUEBRA-NOZES

   Quando as coisas não lhe corriam como pretendia, o Pedro ouvia a avó dizer:
   - Deixa lá! Um dia compro-te um quebra-nozes!
   O Pedro já não pensava em mais nada.
   - O que será um quebra-nozes? - perguntava a si mesmo.
   Como nunca tinha visto nenhum punha-se a imaginá-lo. Pensava num fruto parecido com uma noz, muito grande e alaranjado, com casca estaladiça. Outras vezes imaginava-o muito pequenino, mais insignificante que uma semente de nabiça. Para o comer seria necessário pô-lo oito dias dentro de um copo cheio de água, para que inchasse e se tornasse muito maior do que um ananás... mas sem aquela casca dura.
   Outras vezes suspirava:
   - Se fosse um quebra-cabeças eu já sabia! - e desatava a rir.
   Uma tarde, o Pedro lembrou-se de ir à estante procurar um dicionário velhinho que o pai consultava aos domingos para conseguir completar as palavras cruzadas do jornal.
   Esteve muito tempo à procura da palavra "quebra-nozes".
   Quando a descobriu leu devagarinho, com o coração aos pulos:
   Quebra-nozes - instrumento de metal para partir nozes.
   O Pedro ficou desconsolado: então aquilo é que era um quebra-nozes?!
   Ah, não podia ser!
   À noite, quando a avó voltou a prometer o quebra-nozes, o Pedro ficou a pensar um bocado. E depois disse assim:
   - Está bem, Vó. Mas a partir de hoje só aceito um quebra-nozes-da-imaginação. Pode ser?
   - Pode! - respondeu a avó, que logo se pôs a pensar como seria um quebra-nozes-da-imaginação.

António Mota, Abada de Histórias

sábado, 27 de junho de 2015

A VIDA É UM MILAGRE

A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu canto, seu voo,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.

Manuel Bandeira



sexta-feira, 26 de junho de 2015

ADIVINHA

Não é gato
Nem é cão

Mas quer caçar ratos
E ser guarda-portão

E tem orelhas e pêlo
como o leão.

Não é gato
Nem é cão

Mas gosta de fingir
Que toca violão

E se come bananas
Não come macarrão.

Não é gato
Nem é cão

Se lhe digo sim diz sim
Se lhe digo não diz não

E ninguém pode dizer
que tem muitra imaginação.

Não é gato
Nem é cão

Ninguém adivinha
Nem tem opinião?

Ou já todos sabem
Que é um __________ de imitação?

Maria Cândida Mendonça, O Livro do Faz-de-Conta

quinta-feira, 25 de junho de 2015

RETRATO

   Que linda que era a borboleta! Ai, tão linda que nem fazem ideia! As asas eram todas pintalgadas de azul e roxo, amarelo, cor de laranja e negro, e cobertas por um pó doirado, mais fino que o pó de oiro, mas muito mais! As antenas eram fininhas e arqueadas, como só podem ser duas antenas de borboleta. E os olhos? Os olhos eram muito redondos, muito verdes, muito vivos, com o brilho de duas gotas de orvalho. Mas essa borboleta tão bonita e cheia de qualidades - porque ainda por cima era asseada, inteligente e com jeito para tudo - tinha um grande defeito: era muito teimosa.

Ricardo Alberty, A Galinha Verde

terça-feira, 23 de junho de 2015

A MINHA BICICLETA

A minha bicicleta
só tem dois pedais;
Mas se monto nela
não tem dois, tem mais!

A minha bicicleta
tem um guiador
Quando monto nela...
... sou aviador!

No jardim onde ando
não vejo um canteiro...
Sou aviador,
vejo o mundo inteiro!

Voo mesmo a sério!...

Por cima das árvores
(não toco no chão!)
voo mesmo a sério,
vou de avião...

A minha bicicleta
também tem selim.
Mas eu nem me sento
gosto mais assim:

Pedalo em pé,
dá mais rapidez.
A minha bicicleta
é o que tu vês:

É um avião,
pois eu não te digo?!

Da próxima vez...

Da próxima vez
levo-te comigo?

Fernando Miguel Bernardes, Verso Aqui, Verso Acolá

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segunda-feira, 22 de junho de 2015

SOLA, SAPATO

Sola, sapato
Rei, rainha
Foi ao mar
Buscar sardinha
Para a mulher
Do juiz
Que está presa
Pelo nariz;
Salta a pulga 
Na balança
Que vai ter
Até à França
Os cavalos
A correr
As meninas
A aprender
Qual será 
A mais bonita
Que se vai
Esconder?

Lengalenga usada nas brincadeiras de infância.