segunda-feira, 17 de agosto de 2015

ANDANÇAS DO POETA

Pelo céu cor de violeta,
que lindo,
que lindo vai o poeta.

Pôs uma camisa branca
e sapatos amarelos,
as calças agarradinhas
são da feira de Barcelos.

Pelo céu vai o poeta.
Sobe, sobe de bicicleta.

Eugénio de Andrade, Aquela Nuvem e Outras

domingo, 16 de agosto de 2015

0 MENINO E SEU PRESENTE

   Quando a mãe desceu do ónibus, o menino já estava esperando no portão do jardim. Avistou-a, veio caminhando. Em vez de correr, como todos os dias, andava com dificuldade, curvado para a frente, a mão direita debaixo da blusa.
   - Que foi, Bumba?
   - Nada não, mãe.
   A mãe percebeu logo que ele estava ocultando alguma coisa.
   - O que é que está escondido aí?
   - Pinto.
   - Pinto?
   - É sim, mãe. Olha ele aqui.
   A mãe ajudou-o a levantar a blusa de lã e, antes de ver, ouviu um piado fino. A mão do menino segurava de encontro ao peito um pintinho amarelo, de aparência muito safada.
   - Pode levar para casa não - avisou a mãe.
   - Pode sim, mãe. Eu ganhei ele.
   - Ganhou de quem?
   - A tia deu ele.
   - Deu para você?
   O menino não respondeu. O pinto estava piando debaixo da blusa. Ele pôs a sacola no chão e agora,  com a mão livre, procurava acalmá-lo:
   - Dorme, nenen.
   - A tia deu ele para você? - tornou a mãe.
   - Deu, mãe. Eu juro.
   - Está certo. Os outros meninos também ganharam?
   - Ganhou. Todo mundo ganhou..
   - Deus do céu - exclamou a mãe.
   Apanhou a sacola no chão e pegou o menino pela mão:
   - Vamos, meu filho.

Wander Piroli, Outras Vezes Também Nossas,
Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian



sábado, 15 de agosto de 2015

INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo,
Minha mãe ficava sentada cosendo,
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida que não acaba mais.
[...]

Carlos Drummond de Andrade, 
Alguma Poesia



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O COMBOIO DO ESTORIL

Todas as manhãs
lavo os olhos no mar.
O comboio corre
eu vou devagar
com os meus olhos verdes
no azul do mar.
Falam as pessoas
(falam por falar...)
e eu lavando os olhos
nas águas do mar.
Voa uma gaivota 
que me quer beijar.
Volta que revolta
e volta pró mar.
E meus olhos grandes
de tanto abarcar
vogam sobre as ondas
tão altas do mar.
Um barco pequeno
- quase de brincar -
parece um bebé
aos ombros do mar.
As pessoas leem
coisas de pensar.
Eu leio poesia
no livro do mar.
Com meus olhos grandes
de tanto abarcar.
O sol é uma grande
laranja a inchar.
Deixa cair gomos
de luz sobre o mar.
E um grande navio
(castelo do mar...)
leva muita gente
de lenço a acenar.
Devem ser da China
ou doutro lugar
(também terão olhos
de lavar no mar?)
No comboio os homens
fumam por fumar.
(que pensarão eles
do azul do mar?)
Só eu tenho olhos
de lavar no mar?
Só eu tenho barcos
quase de brincar?
E grandes navios
de gente a acenar?
E uma gaivota
que me quer beijar?
E a Poesia dentro
do Livro do Mar?

Eduardo Olímpio, O Comboio do Estoril


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

AS MENINAS

Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:

"Bom dia!"
Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina,
a mais sábia menina.

E Maria
apenas sorria:
"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

Cecília Meireles, Poesias
 

domingo, 9 de agosto de 2015

A RAPOSA E O BODE

Mestra Raposa passeava feliz
Com seu amigo Bode de altos cornos
Que não via mais longe do que o seu nariz,
Sendo ela diplomada em malandrice.
A sede os levou a fazer tal doidice:
Descer a um poço para matar a sede.
Depois de beberem à sua vontade,
Diz a Raposa ao Bode: - Que faremos, compadre?
Beber, já bebemos! Como vamos sair?
Levanta essas patas, assim contra a parede!
E os cornos também, que pelo teu espinhaço
Vou ver se consigo subir.
Depois, dos teus cornos eu faço
 Uma espécie de escada 
E já daqui me consigo safar,
Para depois te poder salvar!

- Pelas minhas barbas - diz ele - que ideia!
Como eu admiro essa tua esperteza!
Jamais descobriria tal segredo
Para sair daqui, tenho a certeza!
Salva a Raposa, não salva o companheiro.
E ainda lhe faz grande sermão
Para que ele tenha paciência.
- Se o céu - disse ela - te tivesse dado
Não apenas barbas, mas inteligência,
Tu não terias, assim tão ligeiro,
Descido ao poço. Agora, adeus, até mais ver!
Faz todo o esforço para sair daí,
Que eu tenho imensas coisas que fazer
E não posso perder mais tempo aqui.

É necessário ser previdente em todas as ocasiões.

Maria Alberta Menéres, Fábulas de La Fontaine,
Edições ASA