sábado, 9 de maio de 2015

AVÔ CROCODILO


Diz a lenda
e eu acredito!


O sol na pontinha do mar
abriu os olhos
e espraiou os seus raios
e traçou uma rota


Do fundo do mar
um crocodilo pensou buscar o seu destino
e veio por aquele rasgo de luz


Cansado, deixou-se estirar
no tempo
e as suas crostas se transformaram
em cadeias de montanhas
onde as pessoas nasceram
e onde as pessoas morreram


Avô crocodilo


- diz a lenda
e eu acredito
É Timor!


Xanana Gusmão, Mar Meu, Poemas e Pinturas,
 Granito Editores e Livreiros



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sexta-feira, 8 de maio de 2015

A SENHORA DA GRAÇA



   Era uma vez um homem que era casado com uma mulher, muito amiga do vinho, a ponto de não deixar parar vinho na adega. Um dia o homem saiu para comprar uns bois, e recomendou à mulher que não fosse à adega beber o vinho. Apenas o homem virou costas, a mulher chamou logo uma comadre e foram ambas para a adega beber o melhor pipo de vinho que encontraram. O homem, quando voltou para casa e se achou sem o vinho, queria bater na mulher;  mas ela disse-lhe que não lhe batesse, pois estava inocente, quem tinha bebido o vinho tinha sido a gata. Como o homem não quisesse acreditar, a mulher disse-lhe: "Pois olha, homem, havemos de ir à Senhora da Graça, e havemos de perguntar-lhe quem foi que bebeu o vinho, se fui eu ou a gata; se a Senhora disser que fui eu, hei de trazer-te às costas para casa, e se eu estiver inocente hás de tu trazer-me a mim."
   Partiu o homem mais a mulher para a Senhora da Graça e, tendo chegado a um sítio onde havia um eco, a mulher disse ao homem: "Olha, escusamos de ir mais longe; Nossa Senhora também aqui nos ouve." O homem então gritou com toda a força: "Dizei-me, Senhora da Graça, quem bebeu o vinho, foi a mulher ou foi a gata?" E o eco respondeu: "A gata".
   Três vezes o homem perguntou o mesmo, e três vezes o eco lhe respondeu: "a gata". O homem então, convencido que a mulher estava inocente, levou-a às costas para casa, e matou a gata para ela não lhe ir beber mais o vinho.




Adolfo Coelho, in Contos Tradicionais Portugueses,
Iniciativas Editoriais, 1977





quinta-feira, 7 de maio de 2015

O FIM DE UM VOO


   O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios de barriga para cima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.
   No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objeto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.
   Era uma ave muito suja. Tinha todo o corpo impregnado de uma substância escura e mal cheirosa.
   Zorbas aproximou-se e a gaivota tentou pôr-se de pé arrastando as asas.
   - Não foi uma aterragem muito elegante - miou.
   - Desculpa. Não pude evitar - reconheceu a gaivota.
   - Olha lá, tens um aspeto desgraçado. Que é isso que tens no corpo? E que mal cheiras! - miou Zorbas.
   - Fui apanhada por uma maré negra. A peste negra. A maldição dos mares. Vou morrer - grasnou a gaivota num queixume.
   - Morrer? Não digas isso. Estás cansada e suja. Só isso. Porque é que não vais até ao jardim zoológico? Não é longe daqui e há lá veterinários que te poderão ajudar - miou Zorbas.
   - Não posso. Foi o meu voo final - grasnou a gaivota numa voz quase inaudível, e fechou os olhos.
   - Não morras! Descansa um pouco e verás que recuperas. Tens fome? Trago-te um pouco da minha comida, mas não morras - pediu Zorbas, aproximando-se da desfalecida gaivota.
   Vencendo a repugnância, o gato lambeu-lhe a cabeça. Aquela substância que a cobria, além do mais, sabia horrivelmente. Ao passar-lhe a língua pelo pescoço notou que a respiração da ave se tornava cada vez mais fraca.
   - Olha amiga, quero ajudar-te mas não sei como. Procura descansar enquanto eu vou pedir conselho sobre o que se deve fazer com uma gaivota doente - miou Zorbas, preparando-se para trepar ao telhado.
   Ia a afastar-se na direção do castanheiro quando ouviu a gaivota  a chamá-lo.
   - Queres que te deixe um pouco da minha comida? - sugeriu ele algo aliviado.
   - Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso vou pedir-te que me faças três promessas. Fazes? - grasnou ela, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.
   Zorbas pensou que a pobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso ninguém podia deixar de ser generoso.
   - Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa - miou ele compassivo.
   - Não tenho tempo para descansar. promete-me que não comes o ovo - grasnou ela abrindo os olhos.
   - Prometo que não te como o ovo - repetiu Zorbas.
   - Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.
   - Prometo que cuido dele até nascer a gaivotinha.
   - E promete-me que a ensinas a voar - grasnou fitando o gato nos olhos.
   Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.  - Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio - miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.
   Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado e, justamente ao exalar o último suspiro, um pequeno ovo branco com pintinhas azuis rolou junto do seu corpo impregnado de petróleo.

Luís Sepúlveda, História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar,
Porto Editora


Esta é a história do gato Zorbas e da gaivota Ditosa, dois amigos improváveis. Uma história deliciosa que agrada a pequenos e grandes. O autor, Luís Sepúlveda, oferece-nos uma bela fábula com uma mensagem de esperança.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

VIAJAR É CORRER MUNDO


Viajar é correr Mundo
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto...
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios
e ribeiros
e pessoas
e lugares...
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o Mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.


Alves Redol, Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian,
 1990

domingo, 3 de maio de 2015

A RÃ MAINU

Conto popular de Angola



   Quando o filho de Kimanaueza chegou à idade de casar, o pai perguntou-lhe se queria escolher noiva. Ele deu uma resposta surpreendente:
   - Não me casarei com uma mulher da Terra, só casarei com a filha do rei Sol e da rainha Lua.
   - E como é que pensas pedi-la em casamento?
   - Cá me hei de arranjar.
   O rapaz escreveu uma carta e foi pedir a uma zebra que a levasse. Ela recusou:
   - Sendo um animal terrestre, não posso ir ao Céu levar a carta.
   - Tens razão, vou arranjar outro mensageiro.
   Depois de falar com o antílope, que lhe deu uma resposta semelhante à da zebra, o rapaz procurou quem pudesse voar. Teve uma conversa com o falcão, que ainda agitou as asas mas desistiu.
   - Desculpa, não te posso valer, o Céu é muito alto.
   Quanto ao abutre, foi mais direto:
   - Nem penses. O fôlego só me permite ir até meio caminho.
   Desconsolado, o rapaz guardou  a carta. Acontece que a notícia daquele estranho desejo já se tinha espalhado pela aldeia e chegou aos ouvidos da rã Mainu, que resolveu ir oferecer os seus serviços. O rapaz ficou admirado e até zangado:
   - Como te atreves a dizer que vais ao Céu, se aqueles que possuem asas garantem que não é possível?
   - Dá-me a carta e eu levo-a - insistiu a rã Mainu.
   Ele acedeu com maus modos:
   -  Toma. Mas olha que se não cumprires o combinado, levas uma sova.
   A rã não ficou nada aflita. Sabia que os criados do rei Sol tinham por hábito descer à Terra para recolher água num poço, e tratou de se esconder nesse poço com a carta presa na boca.
   Pouco depois ouviu barulho, percebeu que alguém lançara à água um balde, enfiou-se lá dentro e assim viajou até ao Céu sem ninguém saber.
   Chegando ao destino, deu um pulo e foi colocar a carta no quarto do rei Sol e da rainha Lua. Eles ficaram muito admirados quando leram a carta mas aceitaram o pedido. A rã Mainu regressou a casa pelo mesmo processo. A noiva desceu à Terra deslizando por um fio especial tecido pela aranha que servia o rei.
   O rapaz casou com a filha do rei Sol e da rainha Lua, foram felizes para sempre e tudo graças à inteligência viva da rã Mainu.




Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada,
Rãs, Príncipes e Feiticeiros, Ed. Caminho

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sábado, 2 de maio de 2015

Memórias do rio da minha aldeia



   Nunca fui grande pescador. Usava, como qualquer outro rapaz de mesma idade e de posses tão modestas como eram as minhas, uma cana vulgar com anzol, a chumbada e a boia de cortiça atados ao fio de pesca.
   (...)
    Tinha eu ido com os meus petrechos a pescar na foz do Almonda, chamávamos-lhe "boca do rio", onde por uma estreita língua de areia se passava nessa época ao Tejo, e ali estava, já o dia fazia as despedidas, sem que a bóia de cortiça tivesse dado sinal de qualquer movimento subaquático, quando, de repente, sem ter passado antes por aquele tremor excitante que denuncia os tenteios do peixe mordiscando o isco, mergulhou de uma só vez nas profundas, quase me arrancando a cana das mãos. Puxei, fui puxado, mas a luta não durou muito. A linha estaria mal atada ou apodrecida, com um esticão violento o peixe levou tudo atrás, anzol, bóia e chumbada. Imagine-se agora o meu desespero. Ali, à beira do fundão onde o malvado devia estar escondido, a olhar a água novamente tranquila, com a cana inútil e ridícula nas mãos, sem saber o que fazer. Foi então que me ocorreu a ideia mais absurda de toda a minha vida: correr a casa, armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas definitivas com o monstro. Ora, a casa dos meus avós ficava a mais de um quilómetro do lugar onde me encontrava, e era preciso ser pateta de todo (ou ingénuo, simplesmente) para ter a disparatada esperança de que o barbo iria ficar à espera entretendo-se a digerir não só o isco mas também o anzol de chumbo, e já agora a bóia, enquanto a nova pitança não chegava. Pois apesar disso, contra razão e bom senso, disparei a correr pela margem do rio fora, atravessei olivais e restolhos para atalhar caminho, irrompi esbaforido pela casa dentro, contei à minha avó o sucedido enquanto ia preparando a cana, e ela perguntou-me se eu achava que o peixe ainda lá estaria, mas eu não ouvi, não a queria ouvir, não a podia ouvir. Voltei ao sítio,  já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci. Ali estive até quase não distinguir a boia que só a corrente fazia oscilar um pouco, e, por fim, com a tristeza na alma, enrolei a linha e regressei a casa. Aquele barbo tinha vivido muito, devia ser, pela força, uma besta corpulenta, mas de certeza não morreria de velho, alguém o pescou num outro dia qualquer. De uma maneira ou outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha a minha marca, era meu.




José Saramago, As Pequenas Memórias,
 Ed. Caminho



sexta-feira, 1 de maio de 2015

A arca de Noé



   Numa noite de insónia, Noé recebeu um aviso divino de que ia haver um dilúvio e foi incumbido de construir uma arca grande e resistente para albergar e preservar as várias espécies animais.
   Quando Noé iniciou o trabalho, o sol resplandecia e não havia nuvens no horizonte. Mas ele era consciente e, ao fim de muitos dias de labuta, concluiu a obra. Achou-a admirável, e até ficou comovido.
   Apesar da indiferença inicial pela obra de Noé, a notícia do dilúvio correu o mundo inteiro e houve quem demorasse a chegar. Todos queriam um lugar a bordo mas não houve atropelos. Como Noé planeara, o espaço chegava.
   Ao acabar a contagem, ajudado pela mulher, ele nem queria acreditar no número de animais que ali estavam.
   - Oxalá tenham vindo todos!
   Olhou para o céu. Apesar de distantes, viam-se agora nuvens escuras, ameaçadoras. O vento soprava. Primeiro levantou poeira, depois arrancou folhas de árvores e até alguns ramos.
   - Se isto for grave, achas que a arca aguenta? - perguntou a mulher, receosa. - A madeira é boa? Não tem caruncho?
   De súbito, nuvens enormes e escuras, chocaram umas com as outras e ouviu-se um trovão assustador. Os bichos, aterrados, agarraram-se ao que podiam. Os mais pequenos esconderam-se nas frinchas da madeira.
   Ao orvalho da madrugada, seguiu-se um denso nevoeiro e depois uma chuva miudinha. Os pingos engrossaram e choveu como se tivessem aberto torneiras no céu. Em breve tudo ficou alagado. E Noé ordenou:
   - Ninguém sai da arca!
   O burburinho deu lugar ao silêncio. O medo apoderou-se de todos. Quando se fechou a porta da arca, não houve quem não sentisse um aperto no coração ou arrepios pelo corpo.
   Diz-se que um dilúvio avassalador se abateu sobre a Terra. Mal sabiam os tripulantes da arca que a catástrofe duraria quarenta dias e quarenta noites.


Pedro Strecht, A Arca de Noé,
Ed. Presença (texto adaptado)